Rigo

Entrevista

Entrevista a Rigo, intitulada «Em Trânsito».

Publicada na revista arq./a: Arquitectura e Arte, n. 20, Julho/Agosto 2003, pp. 84-87. ISSN: 1647-077X.

A viver entre o Funchal, Lisboa, São Francisco, e mais recentemente Taiwan, Rigo vem realizando desde a segunda metade da década de 80, múltiplas exposições e significativos projectos de pintura mural e de arte pública.  No seu trabalho cruzam-se diferentes elementos gráficos da esfera urbana com referências artísticas, situadas entre o contributo dos muralistas mexicanos e de autores da banda desenhada. Sempre presentes na sua obra, estão também questões relacionadas com o domínio social e comunitário da intervenção artística.  

Foi em São Francisco, cidade onde reside desde 1986, que realizou as suas primeiras intervenções murais. Como chegou a desenvolver essa linha de trabalho? 

Gostei sempre de arte na rua. Era o espaço para a arte que me atraía mais e também cresci num meio pequeno, onde não existia muito a tradição de ir ver exposições de arte, de ir a galerias e a museus. Os meus pais também não tinham esse hábito. O meu irmão mais velho é que estudava arte. Quando cheguei a Lisboa, já havia muito mais para ver, nomeadamente murais ali em Alcântara. Na altura, até assisti à sua substituição por grandes painéis publicitários. Depois em S. Francisco, também existiam muitos murais realizados pela comunidade mexicana, ou seja pela comunidade latino-americana, constituída por pessoas de origem mexicana que já haviam nascido na Califórnia. Havia de facto bastante pintura mural. Nessa altura, em meados dos anos 80, também existia um grande cruzamento entre a arte e a vida nocturna e muitos clubes tinham nos seus espaços murais, intervenções directas nas paredes, projecções de vídeo... E  acabei por pintar um mural num desses clubes, no Club Nine, em 1985, por alturas da festa de fim-do-ano. Antes disso, já tinha surgido o convite para fazer uma exposição, para a qual já tinha um projecto, mas não dinheiro para comprar as telas. Foi aí que o organizador sugeriu que pintasse algo para o clube e aproveitasse o dinheiro para as telas. Assim aconteceu a minha primeira intervenção de pintura mural. Essa experiência resultou muito romântica, porque nem sequer tive tempo de ver a coisa feita, já que o visto de turista acabava a 3 de Janeiro e tive de voltar para Portugal.

Realizou esse mural no espaço interior?

Não, foi no exterior. A princípio era para ser realizada no espaço interior do clube, só que eu era um pouco ingénuo e não estava muito habituado àqueles ambientes de vida nocturna. É que para eles, aquele tipo de expêriências de pintura eram entendidas como uma espécie de «party-time», passava-se lá a noite e depois ia-se pintando a parede. Mas eu levei aquilo muito a sério e acabei por ficar lá a tarde toda a medir muito bem a parede com uma fita métrica e com uma régua. Até tinha três propostas. Talvez pelo excesso de medições, terminei a pintar uma parede exterior, com 30 metros.

Quais foram as suas influências?

Da B.D., de um universo um pouco juvenil. Entre os pintores havia o Diego Rivera que tinha aquela figuração próxima da banda desenhada. Naquela altura, a B.D. «underground» francesa também chegava muito a Portugal. Tinham vindo cá uns tipos pintar umas estações do metro e nós conhecemos alguns deles. As influências eram essas, as da banda desenhada, que eu também fazia, e o punk. Aquele punk português, um pouco suburbano e político, com uma linguagem bastante simples, a preto e branco, altos contrastes, altos volumes, e com um discurso muito pouco subtil. Para o grafitti, ainda não estava muito desperto. Em Portugal só havia o grafitti político.

Depois como é que deu continuidade a essa primeira experiência de pintura mural?

Eu tinha um entendimento da escala como volume, dado que fazia banda desenhada. Mas tinha a  ideia que havia muitos autores a fazer desenhos e que a banda desenhada era uma arte menor. Então na primeira exposição que fiz, decidi ampliar um pormenor de uma B.D. para um tamanho que era o da tela, bem maior. Na altura, achava a B.D. relevante, mas por ser mais pequenina e existirem tantas, parecia que não havia aquela coisa da obra única e da obra-prima. A escala surgiu por aí, sendo maior era mais fácil chegar às pessoas. E já havia uma certa apetência para a rua, como espaço mais verdadeiro e menos protegido do que o das galerias. Esse entusiasmo também teve muito a ver com essa experiência urbana de rua, da arquitectura, da sinalética... Fiquei bastante entusiasmado com tudo aquilo.

Devido ao seu apelo visual?

Porque era estimulante. É que em Portugal a arquitectura denota sobretudo continuidade e história. Nos Estados Unidos, ruptura, o novo, com os neóns, as letras enormes. Era mais apelativa, os edíficios tinham uma presença própria.

Esses projectos partem do seu interesse em intervir num certo local ou resultam de propostas que lhe são feitas?

Varia de caso para caso. Muitos desses murais foram feitos através de concursos abertos pela comissão de arte da cidade. Nesse caso, eles andam à procura de pessoas para se candidatarem e já existe um sítio e um orçamento. A outra situação já passa por identificar um sítio num lugar interessante, onde apetece fazer qualquer coisa, e dar depois seguimento a todo um processo de contactos estabelecidos com os proprietários e com os inquilinos para tentar conseguir autorização. Também acabei por criar com outras pessoas um projecto num beco chamado o Clarion Alley.  Esse projecto foi criado em 1992 com o intuito de pintar tanto quanto possível aquele beco, por exemplo convidando pessoas a intervir. Ainda estou ligado a ele e, no início, dediquei-me bastante ao projecto, depois foram naturalmente aparecendo pessoas novas. Essa foi a parte mais sistemática e burocrática, onde tentei não apenas alterar um prédio, mas uma rua.

Fale-me um pouco do meio cultural de S. Francisco. A criação artística e o género de intervenções que produzem tem alguma tradição na cidade?

Sim, existe uma tradição e uma apetência, mas já existiu mais. Em São Francisco existe um centro de pintura mural, durante um mês do ano chamam a atenção para os murais da cidade, têm visitas de grupo para ver os murais da cidade. Há um edifício que é o Women’s Building, que tem um mural espectacular feito por um grupo de pintoras, o Diego Rivera também passou pela cidade e tem lá três grandes murais.... Mas agora as coisas estão mais complicadas ao nível das autorizações, do clima político, e das questões de seguros. Estamos numa fase menos fácil, as pessoas têm muitos receios. Há muitos murais que se pintam e resultam muito inertes e inconsequentes.

Teve alguma experiência de desentendimento?

Tentei fazer um mural com a palavra «Greed» (ganância) e não foi possível. Aconteceu durante o período do boom económico ligado à indústria da internet, numa altura em que estavam muitas pessoas a perder contratos de arrendamento devido à chegada de um grupo de pessoas com um nível de vida e capacidade económica bastante maiores. E não consegui. Acabei a escrever um mural com a palavra Children (Crianças). Aí não houve problema! Esse mural ficava ao lado de uma escola primária e era uma parede que eu sabia que ia ser demolida para se construir um prédio. A ideia é que a palavra iria ser destruída por uma grua, um pouco à imagem da saída de muitas famílias daquela parte da cidade. Ultimamemente, os trabalhos que tenho concebido são mais para estas situações temporárias, onde sei que não vão durar muito tempo e que terão um significado durante x tempo, depois outro num período de transição...

Interessa-lhe esse lado mais efémero?

Sim. Sobretudo porque aconteceu algo com os murais que eu estava a fazer. A ideia era que eles fossem anónimos, que não resultassem em arte e que fossem um acontecimento visual na cidade, naquele sentido situacionista das pessoas andarem à deriva e de os descobrirem. Só que depois acabou por ser ao contrário, porque as pessoas passavam e diziam: «este é o fulano que pinta murais com umas setas». Quando olhavam para as setas, pensavam mais no autor do que na coisa em si. A certa altura retraí-me, não queria pintar a mais. Gosto das situações em que a coisa aparece e desaparece, já que a capacidade interventiva parece ser maior. Já tentei até subtrair um trabalho propositadamente e alterá-lo. Por exemplo, o One Tree. Queria substituí-lo por uma imagem de emergência, como No War, mas o dono do edifício teve receio.   

Como é que define a sua intervenção na esfera da arquitectura? 

Estou a ficar cada vez mais intrigado e atraído pela arquitectura. Tenho uma relação de parasita com ela, já que acrescento e altero. Mesmo ao nível das exposições de galeria, do espaço interior, o meu trabalho tem tendência para tomar o aspecto de instalação e abarcar todo o espaço.  Ultimamente começo a sentir uma atracção ainda maior pela arquitectura e pelas preocupações da arquitectura. Por exemplo, o atelier onde trabalho em São Francisco é sobretudo um espaço vazio e muitas vezes dou por mim a imaginar como poderia mudar esta ou aquela parede! Tenho notado essa atracção. A relação do mural com a arquitectura é um pouco a de máscara, de cara, porque a arquitectura tem um grande poder em termos de presença, tem uma carga ideológica e simbólica grande. Com a tinta consegue-se alterar. Às vezes pode-se contrariar a arquitectura, outras  denunciar, ou então comentar o que está à sua volta.

Na execução, trabalha em equipa?

Sim. Mas não com muitas pessoas, na maior parte das vezes com uma ou duas.

E quanto tempo demora a realização?

Por exemplo, o Sky/Ground demorou umas 9 semanas.

Para finalizar, qual é actualmente a sua relação com Portugal?

Sobretudo de redescoberta, de reinterpretação. Talvez de releitura, porque Portugal está sempre a mudar e acho que tem mudado muito nestes 20 anos. Tenho sentido uma vontade maior de fazer aqui alguns dos mesmos trajectos que fiz em São Francisco. Quando cheguei a São Francisco,  não pertencia a essa cidade, de modo que não a respeitava, no sentido em que achava que tudo aquilo tinha por base o extremínio da cultura indígena. Estava muito pouco intimidado pela cidade, sentia que os prédios eram tão grandes e que eu podia pintar em grande, sem estar a fazer nada de mal a ninguém. Aqui é diferente, intimida mais, há séculos de história, as pessoas são mais comedidas, há mais receio de fazer grande, de sobrepor, de acumular... Todavia, apesar de ser de cá, tenho agora em relação a Portugal uma distância semelhante há que tinha com São Francisco. Por exemplo, sinto que existe em Portugal uma comunidde africana que está à margem de uma série de processos, e que há abertas, que há espaços que estão a ser pouco explorados. E isso é aliciante para mim. Não sei necessariamente que saída possa ter em termos de produção artística, mas causa-me curiosidade.

RIGO (Ricardo Gouveia) nasceu na Madeira, em 1966. Vem para Lisboa em 1984, onde permanece durante dois anos. Em 1986, depois de uma primeira viagem realizada aos Estados Unidos no ano anterior, instala-se em São Francisco. Actualmente, vive entre os Estados Unidos, Portugal e Taiwan. Estudou artes no Art Institute de São Francisco (BFA, 1991) e na Stanford University da Califórnia (MFA, 1997). Em 1985, após a participação na sua primeira exposição colectiva no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian (“1984: O Futuro é já Hoje?), realiza a primeira individual na Martin-Weber Gallery, em São Francisco. Desde esse momento, são numerosas as intervenções que o artista apresenta em mostras individuais e colectivas. Expõe os seus trabalhos em diversas galerias de São Francisco, de Lisboa, de Nova Iorque e Taiwan, e simultaneamente em espaços culturais e museus de arte moderna e contemporânea de Portugal, dos Estados Unidos (São Francisco, Santa Mónica, Los Angeles, Berkeley), do México, da França, de Taiwan e do Chile. Entre as suas intervenções artísticas no espaço público, podemos salientar os seguintes projectos: Colors (1994), Extinct (1995), Indian Water (1995), Time (1995), One Tree (1995), Birds/Cars (1997), Colors II (1998), Sky/Ground (1998), Museum Pieces (1999), Children (2000) e Truth (2002), realizados em São Francisco; e em Portugal, as suas intervenções na Estação de Correios do Funchal (Comunicação, 1986), no Aeroporto Internacional da Madeira (Bonecas de Massa, 2000), e a criação da calçada Longe/Perto, que concebeu em Lisboa, no âmbito da Expo ’98. Paralelamente à sua actividade artística, que se reparte na apresentação de exposições e concepção de projectos de arte pública, Rigo lecciona artes na University of San Francisco e participa na organização de actividades culturais de índole interventivo no domínio da luta pelos direitos cívicos e justiça social. Rigo foi premiado com o Chauncey McKeever Award (San Francisco Art Institute, 1991), WESTAF/NEA Regional Fellowship for Visual Artists (1994), Best Public Art Project of the Year (San Francisco Bay Guardian, 1996), Stoli - San Francisco Arts Achievement Award for Visual Art Residency Fellowship Award (1997), SECA Art Award (SFMOMA, San Francisco, 1998) e Biennial Award (The Louis Comfort Tiffany Foundation, New York, 1999). A sua obra está representada nas seguintes colecções públicas: Berkeley Art Museum (Califórnia), Rosa Preserve (Califórnia), Los Angeles County Museum of Art, M.H. de Young Memorial Museum, Fine Arts Museum of San Francisco e San Francisco Museum of Modern Art.

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