Fernando José Pereira

Colecção de Arte Contemporânea IAC/CCB

Textos sobre três obras de Fernando José Pereira, publicados no catálogo Initiare – Colecção de Arte Contemporânea IAC/CCB - Aquisições 1997-1999 (pp. 89-93), Instituto de Arte Contemporânea, Instituto de Arte Contemporânea, Lisboa, 2000.

The cooling effect of wind and temperature (1995/97)

No texto que acompanha a obra The cooling effect of wind and temperature (1995/97) Fernando José Pereira aflora a questão do sublime na perspectiva kantiana. E é através da referência à experiência do artista/alpinista, que, para além da emoção da chegada ao cume da montanha, ele sublinha a frustração e a dor perante a incapacidade de «presentificar» ou de registar a experiência sensível num determinado suporte. Intentando formular visualmente as considerações aí expostas, Fernando José Pereira expõe em vitrines, entre material editorial, ventoinhas e uma base de dados informáticos, equipamento desportivo diverso ligado à prática do alpinismo. Da análise das peças que integram a instalação é possível verificar que todas se apresentam desprovidas de marcas expressivas, e mesmo de qualquer aura que lhes afirme a sua singularidade. São aparentemente objectos comuns, reunidos mediante um exercício de apropriação que se furta ao domínio da acção representativa. A sua apresentação, como  artefactos inalterados, marca uma objecção a outra das premissas fundamentais da arte ocidental e privilegia, em detrimento das possibilidades expressivas e representativas, «o primado da ausência imagética, a par da utilização objectual como paradigma do simulacro». É esta mesma ideia que surge reforçada num texto intitulado, Sobre arte, reciclagem e chips electrónicos na época da compressão do tempo (1998), quando FJP nomeia, a partir de uma correspondência com o processo de reciclagem, uma nova categoria de objectos, os «already-used/for use (já usado/ainda por usar)». Uma qualidade de objectos que, segundo o autor, pode constituir alternativa à criação desenfreada de obras no mundo da arte, simultaneamente visando a superação das instâncias de transposição simbólica e de representação. É que estando estes objectos destituídos de uma nova significação, de qualquer inscrição, e mesmo da carga enunciativa veiculada pela assinatura do autor, características que os remeteriam definitivamente para uma existência artística, eles usufruem por isso de uma condição transitória que lhes possibilita a passagem de um universo para outro. Ou seja, é lhes dado permanecer, enquanto objectos não transfigurados, no sistema da arte; e usufruir ao mesmo tempo de uma relação mais estreita com o mundo exterior dos objectos comuns. E como o termo «use» assinala, mantém-se sempre em aberto a questão do seu uso futuro.

A Utopia do Exílio, 1997

A pertença a uma mesma comunidade, a partilha de uma identidade cultural, étnica, religiosa, são factores que conduzem entidades colectivas a bater-se pela expressão da sua  autonomia e a reivindicar a posse de um determinado território. Todavia seria equívoco não contrabalançar a legitimidade desse direito com a afirmação de uma outra lógica, que demasiadas vezes lhe surge associada: aquela que ao longo da história e mesmo hoje continua a ser defendida, em nome dos valores da pátria e da raça e a ter por fim a exclusão, a marginalização de todos aqueles que não prefiguram as características de identificação afirmadas. Tomando por base de análise alguns destes fenómenos, Fernando José Pereira, na instalação – A Utopia do Exílio (1997), evidencia os reflexos negativos de qualquer instância ou factor de normalização, e situa-nos perante o que é definido como uma «existência controlada». A obra referencia ainda, em imagem simbólica, os dados de uma experiência circunscrita a um lugar e tempo precisos, sugerindo através das condições de cativeiro das lampreias o carácter redutor de uma existência concentraccionária. É ainda neste horizonte de reflexão que surge no trabalho de Fernando José Pereira a realidade do exílio, proposta na sua dimensão libertadora. Reinventada como utópico universo de intervenção, ela representa aqui idealmente não apenas a capacidade de transformar as fronteiras intransponíveis em lugares de passagem como a possibilidade de estabelecer percursos e, através das deslocações empreendidas, alcançar pontos de observação privilegiados. Como o artista afirma no texto que acompanha o trabalho,  «O mais apaixonante na condição do exilado é a possibilidade de ver de fora», porque é mediante o necessário jogo das alteridades, no «olhar para dentro como para o outro» que se potencia a responsabilidade crítica de cada um. É pois, a partir da exploração visual e conceptual de uma rede de correspondências metafóricas que Fernando José Pereira questiona o conformismo a que se submete permanentemente o agir contemporâneo. A sua pesquisa é tanto mais relevante dado vislumbrar em estratégia crítica uma alternativa à dinâmica da massificação que se impõe à vivência individual e social neste fim de século. Ao declarar no seu projecto a reabilitação de uma interioridade progressivamente descaracterizada, ao afirmar por intermédio do exílio interior o voltar-se para si, FJP sustenta, num mundo onde a transnacionalidade, o global e a figura do cidadão cosmopolita se tornam os modelos mais mediáticos, uma cultura da reflexão.

36º43`N; 2º30`W, 1998

Ao longo da sua actividade artística Fernando José Pereira tem estendido as suas pesquisas a vastas áreas da experiência quotidiana e da cultura moderna e contemporânea, buscando um contacto estreito com o mundo real e a multiplicidade de abordagens que este suscita. Atento às alterações que a cada passo ocorrem na sociedade, é com sentido de actualidade e sob uma perspectiva informada que ele aborda o uso dos novos meios tecnológicos na arte contemporânea. Em 36º43` N; 2º30` W (1998) essa vocação reflexiva da sua obra surge uma vez mais destacada. Nesta instalação apresentada pela primeira vez no âmbito da mostra Cyber 98 – a criação na era digital (Centro Cultural de Belém, 1998) o artista ignora as sugestões espectaculares ofertadas pela paisagem mediática contemporânea, e explora um ambiente enigmático e uma intervenção marcada pela contenção de meios para interrogar os mecanismos caucionados pela sociedade de consumo e pela implícita lógica do entertainment. Depois de em anteriores trabalhos ter abordado questões relacionadas com os meios artísticos tradicionais, nomeadamente a pintura, dando a ver numa perspectiva crítica as condições para a sua prática na época actual (A pintura como actividade post-mortem, 1995), Fernando José Pereira alarga a sua pesquisa ao universo do multimedia e entrevê as reais possibilidades de intervenção do artista neste campo. Referenciados os perigos que a opção tecnológica pode comportar, demonstradas as pressões sobre a consciência individual – a crescente passividade e resignação decorrentes do fenómeno da «sociabilização da sensibilidade» são referidos – fica o problema do sentido que deve presidir à sua utilização. A reiteração do potencial comunicativo dos novos suportes torna mais necessário definir o seu papel no presente da arte, e que contributo podem prestar na criação de novos territórios discursivos. A resposta é clara: o interesse pelo tecnológico, não podendo esgotar-se no factor inovação e na apropriação meramente formalista, deve basear-se na transmissão de conteúdos de elevado alcance reflexivo e no estabelecimento de um diálogo continuado com o espectador, que persista para além do local da exibição. Intenção que surge bem expressa neste trabalho, pois ao lançar as coordenadas do título como enigma dirigido ao espectador, espera que este, num futuro próximo, o descodifique, condição para renovar o olhar e prolongar a reflexão sobre a obra. Alheado de modas e de opções formais de superfície, Fernando José Pereira reafirma assim as suas preocupações eminentemente éticas e uma postura que vê no exercício artístico uma prática que não se compadece com a manipulação de consensos fáceis.

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