Do it! Edit Yourself

A auto-edição em Portugal

Texto «Do it! Edit Yourself: a auto-edição em Portugal», publicado na revista Arq./a – Revista de Arquitectura e Arte,  n. 105, Janeiro/Fevereiro 2013, pp. 86-89. ISSN: 1647-077X

Existindo muitas razões para criticar o presente, não podemos dizer que culturalmente, no que diz respeito ao campo da arte contemporânea, Portugal esteja em situação crítica, paralisado. Economicamente sim. Mas independente disso e, até por efeito reactivo a um certo número de circunstâncias, há sinais de que se vão constituindo territórios de experimentação, portadores de algum sentido de novidade e invenção ao meio e que muito contribuem para tornar o panorama da cultura um espaço vivo, onde o estímulo e a espontaneidade se tornam mais contagiantes.
Um dos aspectos que gostaria de focar nem tem a ver com a mudança inerente ao aparecimento de novas gerações de criadores, de novas ideias de exposições, da abertura de galerias, de espaços – mas de práticas e iniciativas na área da auto-edição. Nos últimos anos, multiplicaram-se as produções de livros de artistas e as publicações auto-editadas, assentes em práticas de divulgação de conteúdos artísticos e reflexivos, um núcleo prático de investigação que está a ganhar maior centralidade no meio artístico português.
Esta é uma linha de produção muito plural, em todos os sentidos, já que se depreendem diferentes filosofias e intenções nas suas iniciativas. De um  modo geral estas práticas de auto-edição têm interessado artistas de diferentes gerações. Na verdade, assistimos ao lançamento de produções realizadas num regime de objecto único mais próximas do estatuto de obra artística ou de projectos com tiragens mais ou menos limitadas. A autoria também é variável, sendo individual ou colectiva, podendo as publicações e livros nascer enquanto peças de exposição – como a edição de autor Systema Naturae de Catarina Leitão e José Roseira, resultado da colaboração entre a artista e o escritor apresentada na exposição homónima e que teve depois um percurso na qualidade de objeto independente; ou não, como nos casos de Miguel Palma, The Other Japan Fantasies – Encyclopedia W (war) S (space) L (love) and other stories, livro de colagens e desenhos de 2011 ou de Victor Pires, Vieira, Twelve Rules de 2011/12, que surgem como projectos autónomos.
Outro aspecto que contribui para a variedade de filosofias e experiências neste campo é também o cruzamento que estes projectos evidenciam entre diferentes disciplinas, as artes plásticas ou visuais, as artes gráficas, a fotografia, o design, a banda desenhada, a literatura e a poesia. E o mais interessante é que esta linha de investigação está a ganhar espaço, não apenas por integrar novos objectos no seu campo mas por constituir uma das áreas de intervenção mais activas e dinâmicas da actualidade, já que é essencialmente a partir da iniciativa associada à realização destes projectos editoriais e à sua divulgação que se organizam muitas actividades que escapam ao enquadramento expositivo – instância recorrente de mediação na arte contemporânea – com propostas de encontros, residências, conversas, conferências, workshops e lançamentos ou organização de pequenas feiras de edições. De resto o próprio suporte-livro ou publicação constitui-se enquanto modo expositivo com outras capacidades de divulgação e de mobilidade, desafiando as convenções de produção, os seus formatos e suportes de produção, de mediação, de circulação e de comercialização. Trata-se um mundo muito próprio que tem a particularidade de reinventar a sua presença e modo de funcionamento no meio artístico.
Neste artigo gostaria de explorar o seu contributo, não numa perspectiva exaustiva, mas restringindo as nomeações a título exemplar. Desde logo, podemos referir a editora e associação Ghost, fundada em 2011 por David-Alexandre Guéniot e Patrícia Almeida, que acabou de lançar Bad Liver And A Broken Heart de São Trindade (com design de Léo Favier) e Não tenho medo porque não tenho nada, dois projectos interessantes que circularam e marcaram presença em algumas das iniciativas em que a associação participa ou promove muito directamente. Por exemplo, ainda em Dezembro de 2012, organizou, com a Oficina do Cego e em colaboração com a Stet Livros & Fotografias – ponto de venda de edições criado e gerido por Filipa Valladares e Paulo Catrica –, a segunda edição do programa O Que Pode um Livro, no espaço do Atelier Real, com conferências e conversas sobre temas associados aos livros de artista e a auto-edição em Portugal, organizando debates e apresentações de publicações, nomeadamente Logo Depois da Vírgula de Matia Denisse e Época de Estranheza em Frente ao Mundo de Susana Gaudêncio ou Motion Seekness de Alexandre Estrela. Neste programa de encontros teve ainda destaque a apresentação de Portugal Town, três livros de fotografia sobre a temática da «portugalidade», onde se retrataram comunidades emigrantes nos Estados Unidos: The Club de Pedro Letria; P-Town, uma série de três fanzines de João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira; e New World Parkville de Margarida Correia.
Como ocorreu nas duas edições deste ciclo de actividades O Que Pode um Livro, são várias as situações em que vemos estabelecida uma rede de projectos desenvolvidos em comum, e assentes na forma de múltiplos intercâmbios, parcerias e partilhas editoriais. Ainda antes da fundação da associação, em 2011, a Ghost organizou um ciclo de residências com o mesmo nome, onde o programa experimental, expresso na junção das palavras «Guest» e «Host», consistia na transferência de relações autorais proposta a cinco colectivos intervenientes: a Oficina do Cego (práticas e técnicas gráficas), a revista Detritos (pensamento crítico contemporâneo), a Groove Records (editora de música que desenvolve uma pesquisa em torno das origens do Rock português), A Sala (projecto doméstico de performances) e a Rádio Zero (projecto de criação e difusão radiofónica comunitária).
Com grande actividade ao nível das iniciativas de troca de experiências e de projectos experimentais no domínio da auto-edição, sobretudo ancoradas nas artes gráficas, destaca-se a Oficina do Cego. Criada em 2009 e baptizada a partir do nome da antiga firma em cujo espaço se instalou, a Casa de Impressão da Oficina Tipográfica, Calcográfica e Literária do Arco do Cego do final do século XVIII, a Oficina do Cego desenvolve um conjunto de iniciativas direccionadas para a aprendizagem prática e divulgação de técnicas de impressão e auto-edição, através de publicações, workshops, seminários teóricos e exposições onde a regra é não distinguir a figura do autor e do produtor e recuperar, actualizando, a dimensão manual e tradicional das técnicas das artes gráficas na produção de obras contemporâneas.
No campo das editoras independentes podemos ainda referir a Pierre von Kleist, especializada em livros de fotografias e dirigida pelos artistas André Príncipe e José Pedro Cortes, que já publicou livros de André Cepeda, André Príncipe, António Júlio Duarte, José Pedro Cortes, Nils Petter Löfstedt e Pauliana Valente Pimentel; bem como a  Atlas Projectos, de Gonçalo Sena, Nuno da Luz e André Romão, autor que editou o seu livro Poemas Bárbaros em parceria com o espaço Kunsthalle Lissabon, dirigido por João Mourão e Luís Silva.
No Porto, a Braço de Ferro – arte & design fez história na edição independente e auto-sustentada em Portugal. Criada em 2007 pela artista Isabel Carvalho e pelo designer gráfico Pedro Nora, tem uma longa lista de edições, onde se incluem livros de arte e design, bem como  trabalhos de natureza mais reflexiva e ensaística, como A Economia do Artista (2010), com textos de análise sobre economias, regimes, estruturas, políticas de produção e distribuição nas áreas artísticas e culturais. Em 2010, criaram a Navio Vazio, na Rua da Alegria, no Porto, um espaço de ocupação temporária dedicado à «experimentação editorial a três dimensões». Nele têm decorrido lançamentos de panfletos, projectos de André Guedes, Paulo T. Silva e Susana Gaudêncio, entre outros, bem como iniciativas como Impossuível (2010) que conjugou a participação de José Bártolo, Mário Moura, Isabel Duarte, Maria João Macedo, Ricardo Nicolau, Sofia Gonçalves e Marco Balesteros, autores interessados na análise e reflexão sobre a prática e a crítica da edição independente. Sofia Gonçalves e Marco Balesteros foram aliás responsáveis pela organização do workshop Samizdat, desenvolvido de Janeiro a Abril de 2010 na Faculdade de Belas Artes de Lisboa, tendo por orientações centrais a polivalência do papel do designer como autor/editor/produtor e o entendimento do modelo pedagógico do workshop como paralelo ao regime académico e potenciador de experimentação crítica e produção de conteúdos.
Foi nesta ocasião que se apresentou A Estante, uma pequena livraria sem espaço fixo, itinerante e composta por uma única estante, dedicada à difusão de projectos editoriais independentes e autorais, sobretudo do universo do design e das artes plásticas, sem contudo restringir a sua atenção a essas disciplinas.
Procurando uma abordagem abrangente à produção e divulgação de práticas auto-editoriais, gostaria de fazer referência a outros projectos, bem como a espaços de venda de publicações independentes.  No universo das publicações mais, ou menos periódicas, convém referir a qualidade de edição de A Circular, editada e concebida por Afonso Martins e Pedro Cid Proença e cujo primeiro número remonta ao Verão de 2011 e o segundo a Outono de 2012. No âmbito das livrarias, além da já mencionada Stet, situada em Lisboa, no Porto existe a Inc. livros e edições de autor, fundada em 2008 por seis amigos, que publica edições próprias, sendo este o primeiro projecto em Portugal  dedicado à comercialização de livros de artista e edições autoeditadas.
Testemunho da dinâmica crescente e do número de produções, editoras e livrarias dedicadas às publicações independentes são também as pequenas feiras que se organizam e que servem de ponto de contacto entre criadores, editores e público. Em Novembro passado realizou-se um evento satélite da feira internacional Pa/per View nos Maus Hábitos no Porto, com vinte e cinco presenças, de entre elas sete portuguesas: A Estante, Atlas Projetos, Culturgest, Ghost, Inc. livros e edições de autor, sput&nik thewindow e Stet – Livros & Fotografias. Nesta ocasião, e por iniciativa da editora belga Morepublishers teve lugar a apresentação de Le hasard est l'ennemi de tous les métiers, um projecto de colaboração com a artista Leonor Antunes que consiste em três produções baseadas na obra Draft Piston de Marcel Duchamp. Em Lisboa, em Dezembro passado, decorreu a 3ª edição da Feira do Livro de Fotografia na Fábrica Braço de Prata e a 21ª e última edição da Feira Laica – Edição Independente que, desde 2004, foi um espaço de comércio cultural alternativo e justo, reunindo uma abrangente oferta de ilustração, fotografia, banda desenhada, fanzines, edições independentes, objectos artesanais, livros e discos em segunda mão, com a presença de muitos projectos e editoras. Por exemplo, a Chili Com Carne, associação fundada em 1995, cuja principal actividade tem sido desde 2000 a edição de zines e livros; a Opuntia Books, editora independente, especializada essencialmente em produzir edições únicas e limitadas de livros/zines de artista; e a Imprensa Canalha, projecto que publica sobretudo material impresso de natureza gráfica.
Deixar para o final deste texto, a referência ao fim da organização da Feira Laica, do evento mais regular e com maior visibilidade pública em Portugal dedicado à edição independente, não poderá causar preocupação sobre o presente e o futuro da edição independente em Portugal. No texto de despedida intitulado «Laica Dead», os seus organizadores anulam o lado mais fatídico do seu fim, referindo num tom muito optimista e construtivo a difícil e voluntariosa gestão destas iniciativas: «Passados 8 anos de actividade, dois dos principais organizadores deste evento decidiram parar com a Feira Laica para fugir à rotina. Na realidade, estes organizadores o que gostariam era de aparecer na Laica apenas como editores e não terem de indicar onde estão as mesas e cadeiras, lidar com bandas e não poder assistir ao show, criar um ciclo de cinema e não poder ver os filmes sentadinhos com o público, etc., etc.… Será uma pena não haver uma continuação do projecto uma vez que, ao contrário de 2004, nunca antes se sentiu tanta energia e publicação independente (e com qualidade!) como nos últimos dois anos. A Laica morreu! Viva a Laica!».

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