Miguel Palma

Acerca da densidade e do movimento

«Acerca da densidade e do movimento na obra de Miguel Palma» in Miguel Palma: Densidade (pp. 36-45). Vila do Conde: Solar - Galeria de Arte Cinemática. ISBN: 978-972-98574-3-0.

Exposição: Miguel Palma – Density/Densidade
Curadoria: Sandra Vieira Jürgens
Local: Solar - Galeria de Arte Cinemática, Vila do Conde
Data: 26.11.2011 – 12.02.2012

Seis Propostas para o Próximo Milénio (Lições Americanas), de Italo Calvino, reúnem as notas do autor sobre um ciclo de seis conferências que, a convite da Universidade de Harvard, dedicou a alguns valores literários a conservar no próximo milénio: a leveza, a rapidez, a exactidão, a visibilidade e a multiplicidade.
A exemplo da reflexão de Italo Calvino nas suas lições americanas, uma das formas de abordar a actual exposição de Miguel Palma na Solar Galeria de Arte Cinemática é desenvolver uma análise sobre o valor da densidade e estabelecer uma perspectiva potencialmente expansiva para o seu trabalho. Na sua primeira conferência, dedicada à dicotomia leveza-peso, Calvino estabelece um comentário sobre a história da literatura, evidenciando dois modelos de prática diferenciados e contrapostos, passíveis de extrapolação para o campo da produção escultórica e da linguagem visual:
Podemos dizer que duas vocações opostas disputam o campo da literatura através dos séculos: uma tem a tendência para fazer da linguagem um elemento sem peso, que flutua sobre as coisas como uma nuvem, ou melhor, como uma finíssima poeira, ou melhor ainda como um campo de impulsos magnéticos; a outra tende a comunicar à linguagem o peso, a espessura, a concreção das coisas, dos corpos e das sensações.[1]

Se observarmos a obra de Miguel Palma, tomando especificamente em consideração as duas correntes assim apresentadas, dir-se-ia que ela corresponde a uma experiência prática próxima da segunda linha enunciada por Italo Calvino e que com ela partilha alguns dos seus pressupostos mais particulares. Mais do que extrair ou subtrair peso aos objectos, a prática artística de Miguel Palma é constituída por meios materiais e exercícios de materialização e apropriação escultórica que expõem a condição material, a presença física, sólida, tridimensional dos corpos. É desta forma que expõe o fascínio por tudo aquilo que a qualidade física do mundo comporta, por oposição a uma elevação incorpórea sobre a gravidade do mundo.
Apesar desta convergência observável, a relação de proximidade que procuramos sublinhar é mais complexa e apresenta pontos divergentes. Se na generalidade, a materialidade e o peso do mundo se evidenciam na obra de Miguel Palma, esta assenta noutras especificidades e diferenças. Ela não expõe a petrificação e não deriva da inércia que Italo Calvino atribui e reconhece como qualidades associadas ao valor do peso; é sempre dinâmica, por vezes performativa.
Remontando à observação de Calvino, se aceitarmos a analogia entre a linha da prática literária e a da tradição escultórica, ou seja, os valores genéricos da definição pura e tradicional de escultura, relacionados com o peso e outras qualidades físicas do objecto, poderemos ver que a escultura de Miguel Palma não assenta num discurso próprio da disciplina. Fora da rigidez das convenções, as suas obras não se referem a questões da escultura clássica, com os seus objetos tendencialmente pesados e estáticos. Assumem, pelo contrário, a flexibilidade de esferas da experiência do objeto utilitário, híbrido, industrial, apropriado como readymade e reinventado ou recuperado em actos criativos que reflectem uma prática associada ao questionamento da monumentalidade tradicional da escultura clássica.
A produção escultórica de Miguel Palma caracteriza-se também pela sua emancipação em relação ao discurso e definição da escultura moderna, associada ao carácter monolítico, fechado, autocontido e autónomo das estruturas. As suas reticências em relação à abstracção e ao formalismo conduzem-no a uma incompatibilidade com o plano cartesiano, à expressão de uma sensibilidade projectada pela obra que tende para a afirmação da mobilidade, flexibilidade e densidade orgânica dos corpos.
Mesmo se nos detivermos apenas nos trabalhos presentes nesta exposição, apercebemo-nos de que Miguel Palma não omite o corpo, a realidade física do objecto, a estrutura das máquinas que constrói e reinventa, e que, pelo contrário, assume-as plenamente. Todavia, mais do que o valor do peso, são a densidade, a energia e a potência que se manifestam na sua obra. Ao recorrer no seu trabalho à inscrição de movimento, uma das qualidades fundamentais da manipulação e da execução mecânica das suas peças, Miguel Palma distancia-se do objecto estático e explora a tensão original, conferindo ou simulando nos seus projectos artísticos a vitalidade, a intensidade e a espessura da ordem orgânica em que existimos. Parece ser esta uma arma ou sistema de defesa contra a inércia do mundo. Muitos dos dispositivos mecânicos das peças do autor dão literalmente vida e movimento aos objectos, transformando o inanimado numa variedade de formas vitais cuja ilusão é a de uma arte que parece estar viva.
Desde o início da sua produção artística, são múltiplos os exemplos de peças nas quais o autor incorpora determinados processos mecânicos que oferecem movimento à experiência do objeto. Podem conter sistemas de rotação, reprodutores do ritmo da existência, processos de ventilação que simulam forças da natureza, onde a mobilidade e a temporalidade são condições essenciais da obra, da sua materialização e interpretação. Para referir somente os exemplos mais recentes, vejamos o caso de Citoplasma e de Dead End, duas das obras em exposição que expõem a presença de corpos em contínua instabilidade e turbulência, e que resistem, ainda assim, aos efeitos ilusórios de fenómenos físicos e atmosféricos destrutivos, perturbadores.
Miguel Palma, na sua obra, faz a evocação do humano através da presença sublinhada de objectos animados e seres viventes. Os dispositivos técnicos estão para os objectos e construções do artista, como a anǐma está para o ser vivente, para o que é vivo, conferindo vida ao corpo. Não são raras as vezes em que, num sentido literal, as estruturas apresentadas pelo artista exprimem uma condição de vida sustentada por movimentos que se relacionam com a experiência vital da respiração. Numa lógica inorgânica, repetitiva, homogénea, circular, os seus mecanismos operam em ritmos de inspiração e expiração. Um excelente exemplo desta operação é Vacuum, peça desta exposição que, à semelhança de anteriores trabalhos como Pleura (2009), exibe movimentos de contínua oscilação mecânica num processo dialético de expansão e de contração, de excitação e depressão dos corpos.
É pois numa perspectiva da escultura enquanto campo de possibilidade de um objecto transcender e expandir o seu território, que a sua obra se situa no seio das correntes do paradigma da escultura contemporânea. E podemos afirmar que a conjunção escultura-movimento de Miguel Palma dá lugar a um conceito de escultura cinemática (do termo grego κινημα, movimento), que certamente determina uma nova linha de abordagem no seu trabalho. Uma linha, ou um novo território, não explorado na leitura dessa obra, e que pode ser proposta não apenas relativamente às peças presentes nesta exposição, mas também em relação a obras anteriores do artista.
Algumas dessas obras, mesmo sendo esculturas, poderão também ser entendidas na sua relação particular com características e qualidades cinemáticas. Miguel Palma constrói objectos que projectam corpos e imagens em movimento, que nos convocam muito directamente à experiência da visão. Esta ideia pode ser comprovada em Drive-in, peça em exposição na Solar, cujo dispositivo de projecção é um exemplo emblemático da articulação entre escultura e imagem. Olho Mágico (1993), que consiste numa máquina óptica, terá sido a peça fundadora desta linha de trabalho do artista. Outras das suas peças, objectos e máquinas situam-se na mesma genealogia e incorporam recursos de captação em vídeo e sistemas de projecção de imagens, deixando os dispositivos e a estrutura maquínica – as câmaras, projectores, monitores, e ecrãs de projecção – visíveis numa prática de instalação: Avião (1997), Lisboa-Roterdão (2001), Follow Me I, Follow Me II (2006), Eclipse (2011).
Escultor de objectos cinemáticos, Miguel Palma, através das suas obras, materializa um desejo enunciado por Boris Groys quando, num texto de 2002, On the New, responde à sua própria pergunta «Why does art want to be alive rather than dead?» referindo a intenção dos artistas contemporâneos de superar as construções históricas, abstractas e mortas do passado. Miguel Palma pertence a esta geração de artistas. Ele produz simultaneamente uma realidade em movimento e interpela-nos numa sucessão de imagens que geram a impressão de contínua e viva actualização. Num círculo de ritmos repetitivos e infindáveis, à semelhança do efeito loop das experiências videográficas e de certo cinema experimental, representam-se simultaneamente o desfecho e o começo. Não podemos também esquecer que na origem dos seus trabalhos está uma imagem mental. Antes de ser realizada, a escultura é ideia, imaginação visual, e só depois é concretizada, cristalizada numa forma definida. Projectadas a duas e a três dimensões, as imagens de Miguel Palma são, como frequentemente lembra, resultado de um investimento intuitivo e de uma experiência de interacção temporal e espacial com a complexa e densa realidade.


Footnotes

  1. ^ Italo Calvino (1994). Seis Propostas para o Próximo Milénio (Lições Americanas). Lisboa: Teorema, p. 29.

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